A ti, que és ódio e carne rasgada.

Alguém a partiu. Alguém pegou nela, atirou-a ao ar e viu-a cair – ela desfez-se em tantos pedaços.

Levantou-se e juntou as partes que conseguia. Varreu o chão. Varreu-o a fungar o nariz. Fumou seis cigarros. Vomitou. E lavou a cara. Tomou banho e voltou a lavar a cara. Alguns dos pedaços remendados fugiam-lhe da carne e ela tentava, em vão, repô-los.

Alguém a partiu e alguns dos cacos foram para debaixo da cama. E ela sabe que lá só existem monstros. Ela não os apanhou.

Mudou de casa.

Mudou de casca.

Não mudou de pele. Não conseguia.

Pegou numa faca e tentou desenhar uma saída do próprio corpo.

Não conseguia.

Vestiu o casaco e foi comprar mais cigarros. Atravessou o chão gelado e caiu e a neve parecia mais quente do que na noite anterior. A neve trazia conforto.

Fumou mais seis cigarros. E vomitou. Na neve. Que nojo! Nojo dela. Daquele alguém que a deixou cair.

Propositadamente.

E ele era um filho da puta. Mas ela estava bêbada. Estava? Não sabe. Não se lembra.

Puta.

Estava a pedi-las, de certeza. 


Agora chora, já se lembra. Já sabe o cheiro que se sente quando se cai ao chão. Já sabe como respira alguém que atira a mais fina peça de porcelana ao chão. Já sabe como é suave, e livre de culpa, a pele de alguém que atira a mais fina peça de porcelana ao chão.

Propositadamente.

Qual culpa? Se ela estava bêbada. Não estava?

Mas estava a pedi-las, de certeza.


Puta.

4:14

Amanhã é sábado... isto é, neste momento, já é sábado...
Amanhã acordarás cedo e tão certo é isso como não saberes que nesta madrugada, em que dormes (e espero que tenhas tirado os óculos), não consigo sequer considerar a ideia de fechar os olhos e adormecer...
Tive aquelas ideias. Daquelas.  E fiz por não pensar nisso. E tenho medo de adormecer e que o meu coração me conceda esse último desejo. Mas é tudo tão colossal e torturante... e as paredes em volta estreitam-se e asfixiam-me e o meu peito sobe e desce,  dolente... 
As lágrimas fogem-me e eu só peço para poder adormecer onde tu estás,  para que, mais uma vez, o teu corpo e o teu calor sejam a minha música de embalar...


neuf

Quero que cases comigo. Que cases com o meu riso sonolento, com os meus complexos e os gostos exóticos. Que te sintas bem num ninho de andorinhas; que ames a Primavera e o sol de Março e os jardins teus, de amores-perfeitos. Quero que cases comigo. Na pele. Que consumas todo o meu corpo, como em tantas luas o fazes, e que me amarres, sem que queira fugir. 
Por isso, quero que tenhas tudo o que me cai dos bolsos: um brinco, um bombom ou um amor-perfeito – redondinho e aveludado, como o amor-perfeito tem de ser –, todas as arcas de tesouros que guardo no peito e na memória. 
Quero-te como quero a própria vida e anseio da tua saliva todo o amor que guardaste para mim, Quero-te nas minhas veias e no meu ventre e nas pontas dos dedos e quero-te assim, sem fim, total, loucamente. 
Amo-te mesmo.